terça-feira, 20 de setembro de 2011

hora do recreio

- Desce logo que vem carro atrás!

- Tá, tchau...

Saí do carro e fui em direção à universidade. Depois de alguns passos, olhei as horas no punho esquerdo. Era 13:28, segundo o relógio digital. Que estranho, pensei que tinha colocado o analógico hoje de manhã, nunca mais tinha usado esse digital. Ah, deve ter sido o sonambulismo das primeiras horas do dia. De qualquer forma, faltavam só dois minutos pra começar minha aula na faculdade. Apressei o passo e consegui chegar a tempo.

Não estava gostando muito da aula. Parecia que eu já tinha ouvido tudo aquilo em algum lugar e, talvez, estivesse sendo didática demais. Mas tudo bem, nunca gostei muito de Ciências mesmo. Percebi o fim da aula com o som alto de uma sirene. Meus colegas ficaram impacientes, querendo se levantar, mas só saímos depois que o professor liberou.

No recreio, – que engraçada esta palavra – abri minha mochila e, dentro, havia uma lancheira com um bauru, uma maçã e um suco de caixinha. Achei maravilho, apesar de não entender muito bem como aquilo fora parar ali. Na verdade, o sanduba estava tão bom que parecia ter sido preparado pela minha mãe.

Feito o lanchinho, fui ao banheiro. Os mictórios estavam vazios; as cabines, todas ocupadas. Parecia que o pessoal tinha vergonha de fazer xixi um do lado outro. Ou talvez eles não alcançassem o mictório. Sei lá, eu fiz ali mesmo. Em seguida, quando fui lavar as mãos, me olhei no espelho e vi que meu cabelo estava mais liso que o normal, cabelo de índio, corte de pinico.

A sirene tocou de novo. Eu não queria voltar pra aula, mas sabia que era impossível gazear. Imagina se alguém descobre, imagina se minha mãe descobre!! Mas eu não podia voltar pra sala. Não sabia o motivo, mas eu simplesmente não podia voltar.

Então, num ato rebelde, me escondi dos alunos e dos professores e saí de fininho da escola, quando a barra já estava limpa. Na rua, tentava encontrar um motivo da fuga, mas nada vinha à mente. Peguei meu celular. Celular? Eu mal sabia mexer, tinha acabado de ganhar um da minha vó. Fui direto para os joguinhos. Tentei me entreter, mas não estava com paciência, estava inquieto.

Comecei a passear pelas funções do aparelho, então. Passei pelas configurações, chamadas, mensagens, lembretes. Tudo muito chato, até entrar na agenda. Realmente gostei desta ferramenta, a agenda. Fiquei ansioso, descia sem parar nomes e mais nomes, até que, finalmente, lembrei! Lembrei que tinha esquecido alguma coisa naquele carro.

Apertei o botão verde e o telefone começou a chamar. Olhei para meu punho esquerdo e lá estava meu relógio de ponteiros.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

providência

Eu estava no fundo do ônibus, naquela última fileira, e ocupava três lugares. No meu lado direito, o banco da janela, deixei minha mochila e meu violão e, à minha esquerda, minha mala de rodinhas com roupa suja. Uma senhora morena, com rosto marcado por rugas e olhar cansado sentava à frente do violão e apoiava a cabeça na janela. No outro canto da última fileira, estava uma moça simples de uns 20 anos e na frente dela, outra moça simples de uns 20 anos. Nos outros lugares perto de mim não tinha mais ninguém.

Depois de uns cinco minutos de passeio, entrou um velho de mais ou menos 60 anos. Usava um pulôver azul marinho, uma camisa social azul claro por baixo, jeans e sapato. O cocuruto já estava careca e sua barba era branca e rala. Seus óculos de armação fina e dourada e lentes grossas, somados a um ar de aristocracia, pareciam entregar seu sofrimento por estar no coletivo.

Coloquei minha mala no colo, mas o velho sentou na minha frente – com metade da bunda para fora do assento e as costas na diagonal – ao lado da senhora que, para ele, podia ser sua faxineira. Do alto de sua cara fechada, olhou a mulher de cima a baixo, que percebeu e revidou com um olhar cabreiro. O velho, por sua vez, mandou a tréplica, agora com um ar de superioridade e nojo. Nenhuma palavra foi pronunciada.

Mais umas três, quatro paradas e entra um casal de jovens pombinhos. O rapaz tinha, no máximo 19 anos, era narigudo, tinha rosto e cabelo ensebados e vestia um moletom canguru preto. Transmitia insegurança, quando falava não se ouvia nada. A moça era o oposto, falava muito e alto demais e, apesar de ser toda desengonçada, parecia ter muito amor para dar.

Botei minha mala de roupa suja no colo de novo. Desta vez, o assento em que a mala descansava foi ocupado logo depois – a menina sentou sua bunda mole ao meu lado, entre eu e seu suposto namorado. No início trocaram carícias contidas e conversaram um pouco. Ela só falava merda e o cara só concordava.

Depois de mais uns cinco minutos na grande lata coletiva, a moça simples de uns 20 anos que estava na penúltima fileira puxou a cordinha e tomou seu rumo. Mal ela saiu e o casalzinho se levantou e pulou para o lugar vagado. O casal brigou pelo banco da janela como dois irmãos tolos que brigam todo dia. Ele ganhou e, para comemorar, lançou um baita sorriso maroto para amada.

Voltei minha mala de rodinhas para o assento ao meu lado esquerdo, para felicidade das minhas pernas.

Por longos minutos o casal manteve um entrelaçamento de mãos, pernas e línguas, para horror do velho, que agora estava na mesma fileira dos dois, separado apenas pelo corredor. A cada barulhinho de saliva ou estalo de lábios, a barriga dele parecia se embrulhar e, como que por instinto, olhava com nojo e reprovação para os dois pombinhos que, felizes da vida, nem notavam o moralista.

Foi na última parada, antes de o ônibus entrar no terminal, que o velho desceu – o ponto da Assembleia Legislativa, a casa das leis. Na calçada, dois negões e um cara com dreads andavam tranquilamente.

Parou nos degraus, por um instante, ao perceber os três pedestres que se aproximavam. E olhou para os dois lados, com medo, à procura de uma saída segura.

De repente, ficou tranquilo e desceu do ônibus.

Tentei imaginar o motivo da súbita confiança do velho. Talvez eu tivesse sido preconceituoso, talvez ele só hesitara nos degraus por não ter certeza do ponto onde deveria parar.

Então, torci todo o meu pescoço à direita, para tentar alcançá-lo com os olhos. Quanta tranquilidade, seu rosto até estava iluminado! – de azul e vermelho, que se revezavam com o giro das sirenes.

Duas viaturas, cercadas por uns quinze policiais mal encarados, que exibiam pistolas ou fuzis, estavam estacionadas logo atrás. Ainda bem. Se eles não estivessem ali, com certeza, o pobre velhinho passaria por apuros. Mais uma vez, os homem mostraram que o bem sempre vence o mal.