quinta-feira, 23 de setembro de 2010

a chuva

Desta vez ele acordou com os irritantes despertadores e nem precisou abrir a cortina para saber que a tempestade havia chegado. Ao abrir os olhos, a dor de cabeça apareceu para penalizá-lo pela imprudência de horas atrás, mas com um esforço sobrenatural levantou-se. "Puta que pariu, só porque tem prova mesmo." Com olheiras e cabelo bagunçado, foi andando o mais rápido possível embaixo de seu guarda-chuva deformado pelo vento, mas antes de chegar ao ponto de ônibus, teve tempo para pisar em uma poça d'água e ficar agoniado com suas meias encharcadas.
Esperou mais de quinze minutos pelo ônibus que demorou para chegar por causa do trânsito, ainda mais caótico em dias de chuva. Ao passar pela catraca, olhou para o relógio. "A prova está começando". O 144-Santa Cecília estava lotado. Empurrando e sendo empurrado, conseguiu chegar até os fundos, perto da escada, onde ficou imóvel até descer dez minutos depois. Correu até a sala de aula e chegou molhado da chuva e de suor.
Foi mal na prova. Ainda estava respondendo a penúltima questão quando o professor puxou o teste depois que o sinal soou. Com isso sua nota máxima seria 8, mas sua previsão otimista estipulou um 5 e meio. No intervalo, perdeu duas partidas de sinuca e, na volta à sala, lutou contra o sono em uma aula sonolenta de um professor que não tolera cochilos.
Fim de aula. Procurou em vão por alguma carona e foi para a parada de ônibus. A chuva castigava os infelizes que, além de não ter carro, não conseguiam nem se abrigar sob o teto do ponto lotado. Sua condução chegou. Sentou-se ao lado da janela, onde assistia à uma acirrada corrida de gotas sem notar as pessoas à seu redor, afundado em aflições que o consumiam e pensamentos que divagavam sem chegar a lugar algum e só aumentavam sua tristeza inexplicável. Para contê-la, tirou do bolso o mp3 e, ao passar por Engenheiros, lembrou-se de uma velha conhecida, ótima companheira quando não há mais companhia. "O que você me pede eu não posso fazer..." Piano bar - conforto em forma de música. Depois de dois minutos, "e toda vez que falta luz, o invisível nos salta os olhos. Ontem a noite..." Não. A bateria não respeitou a canção e no ponto alto da interpretação, silêncio. Visualizou o aparelho dividido em algumas partes sob seus pés, mas por algum motivo, a prudência não permitiu que o quadrado de metal levasse a culpa e a raiva ficou guardada até o fim da linha.
Quando ele desceu do ônibus a chuva estava mais amena, mas sua agonia não. De cabeça baixa e chutando pedras com passos tortos, ele caminhava em direção à sua casa imaginando o repouso no silêncio de seu quarto. Depois de cinco minutos de passadas curtas, ele encontrou o que seria a cura para sua tristeza em outras épocas - na esquina, um lindo sorriso. Talvez em outras épocas...
Chegou em casa, tomou uma garrafa de conhaque e fumou charutos falsificados. Depois da embriaguez, dopou-se com ópio e tudo ele esqueceu.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

o canudo

Naquele dia ele acordou sem o barulho do despertador que o faz levantar todas as manhãs. Puxou a cortina e não viu a névoa que sufocava o azul do céu e os raios do sol há dias. Abriu a janela, não ouviu o barulho dos carros e não sentiu o cheiro da fumaça suja, mas ouviu o barulho dos pássaros que cantavam 'bom-dia'.

Não pôde ignorar o convite.

Pisou na areia meia hora depois e sentiu-se ainda melhor. Lembrou-se dos conselhos de sua madrinha. "Ande descalço na terra, na areia, na mata. Abrace as árvores. Saia da rotina para descarregar sua energia estática." Pensou em considerar essa ou outras teorias, mas só conseguiu concentração suficiente para acompanhar o vôo rasante de uma gaivota atrás de seu desjejum.

Antes de avançar ao mar, parou para contemplar a imensidão azul e, enquanto o vento terral se misturava com a maresia e batia - úmido e salgado - em seu rosto, agradecia por estar ali. Sem pressa, suas pernas passavam pelas águas geladas de um mar liso, sem correnteza. Os carneirinhos, tão comuns com o vento sul, deram lugar aos peixes, que passavam apressados embaixo das quilhas que cortavam a água transparente.

Ao passar a arrebentação, sentou na prancha e não conseguiu, nem quis tirar o sorriso do rosto.

Conseguiu descansar sua coluna lombar e seus ombros - rígidos pelo esforço da remada - até a primeira onda da série crescer, aos poucos, no horizonte azul. Ela se aproximava e ganhava corpo rapidamente - constante e uniforme, graças ao vento terral que a alisava com carinho.

Ansioso, deitou-se na prancha e começou a remar em direção à primeira onda do dia. Cada vez que um de seus braços o impulsionava, empurrando a água para trás, seu coração batia mais forte, pois percebia que essa onda podia lhe proporcionar o que ele, há muito tempo, sonhava.

Desde que ganhou sua primeira prancha, aos 11 anos de idade, ele sempre soube qual era a melhor sensação do esporte, mas ainda não a havia experimentado. Toda vez que algum amigo passava por isso, contava para ele com tanto entusiasmo que, às vezes, sentia inveja. Ele precisava passar por isso logo e sentia que estava amadurecendo, que a hora estava chegando.

Há poucos metros dele, a crista da onda começou a descer rapidamente, quebrando sobre a bancada rasa de areia. Remou quase que desesperadamente à procura do melhor posicionamento para descer a onda de frente, para a esquerda. Chegando à base, virou-se, dando-lhe as costas e, após apenas duas remadas, levantou-se sobre a prancha.

A onda tinha de três à cinco a pés. Devido à maré vazante, à bancada rasa e ao vento da terra para o mar, sua parede estava incrivelmente em pé – muito tubular. O canudo era largo, alto e sua porta estava escancarada. O barulho que o volume de água produzia era alto, mas agradável. Perfeita combinação entre som e imagem.

O drope não foi fácil. Dificultado pelo backwash, que o fez fechar os olhos por uma fração de segundo, quase embicou a prancha e se desequilibrou. Por pouco que o pequeno deslize não o fez ficar para trás da onda que corria rápida, mas, na hora certa, conseguiu voltar para o trilho e, logo em seguida, percebeu que a crista o encobriria. Tirou uma foto mental dessa cena. Flexionou um pouco mais os seus joelhos, deu uma leve acelerada e enterrou seu braço até a metade na parede da onda.

Estava dentro do tubo. Estava participando da mais incrível sensação do surfe, do mar, da natureza. O som de dentro da onda foi inexplicável, nada mais se ouvia. O visual lhe causou arrepios, estava cercado por todos os lados pela água tubular e, pelo fim do cilindro, conseguia ver uma parte do sol brilhando.

Ele não soube por quanto tempo habitou as entranhas daquela onda mágica. Talvez alguns minutos. Ao sair pela porta da frente, quando a parede já havia perdido metade do seu tamanho máximo, a onda o parabenizou soltando um spray que lavou sua alma.

Ficou no mar por mais algum tempo, prolongando a sensação de felicidade extrema.

Ao chegar em casa, tentou escrever vários textos que descrevessem a experiência desse dia, mas sabia que não conseguiria colocar em palavras todas as emoções que sentiu.

Apesar disso, redigiu um texto meia-boca e publicou-o para ninguém.