Desta vez ele acordou com os irritantes despertadores e nem precisou abrir a cortina para saber que a tempestade havia chegado. Ao abrir os olhos, a dor de cabeça apareceu para penalizá-lo pela imprudência de horas atrás, mas com um esforço sobrenatural levantou-se. "Puta que pariu, só porque tem prova mesmo." Com olheiras e cabelo bagunçado, foi andando o mais rápido possível embaixo de seu guarda-chuva deformado pelo vento, mas antes de chegar ao ponto de ônibus, teve tempo para pisar em uma poça d'água e ficar agoniado com suas meias encharcadas.
Esperou mais de quinze minutos pelo ônibus que demorou para chegar por causa do trânsito, ainda mais caótico em dias de chuva. Ao passar pela catraca, olhou para o relógio. "A prova está começando". O 144-Santa Cecília estava lotado. Empurrando e sendo empurrado, conseguiu chegar até os fundos, perto da escada, onde ficou imóvel até descer dez minutos depois. Correu até a sala de aula e chegou molhado da chuva e de suor.
Foi mal na prova. Ainda estava respondendo a penúltima questão quando o professor puxou o teste depois que o sinal soou. Com isso sua nota máxima seria 8, mas sua previsão otimista estipulou um 5 e meio. No intervalo, perdeu duas partidas de sinuca e, na volta à sala, lutou contra o sono em uma aula sonolenta de um professor que não tolera cochilos.
Fim de aula. Procurou em vão por alguma carona e foi para a parada de ônibus. A chuva castigava os infelizes que, além de não ter carro, não conseguiam nem se abrigar sob o teto do ponto lotado. Sua condução chegou. Sentou-se ao lado da janela, onde assistia à uma acirrada corrida de gotas sem notar as pessoas à seu redor, afundado em aflições que o consumiam e pensamentos que divagavam sem chegar a lugar algum e só aumentavam sua tristeza inexplicável. Para contê-la, tirou do bolso o mp3 e, ao passar por Engenheiros, lembrou-se de uma velha conhecida, ótima companheira quando não há mais companhia. "O que você me pede eu não posso fazer..." Piano bar - conforto em forma de música. Depois de dois minutos, "e toda vez que falta luz, o invisível nos salta os olhos. Ontem a noite..." Não. A bateria não respeitou a canção e no ponto alto da interpretação, silêncio. Visualizou o aparelho dividido em algumas partes sob seus pés, mas por algum motivo, a prudência não permitiu que o quadrado de metal levasse a culpa e a raiva ficou guardada até o fim da linha.
Quando ele desceu do ônibus a chuva estava mais amena, mas sua agonia não. De cabeça baixa e chutando pedras com passos tortos, ele caminhava em direção à sua casa imaginando o repouso no silêncio de seu quarto. Depois de cinco minutos de passadas curtas, ele encontrou o que seria a cura para sua tristeza em outras épocas - na esquina, um lindo sorriso. Talvez em outras épocas...
Chegou em casa, tomou uma garrafa de conhaque e fumou charutos falsificados. Depois da embriaguez, dopou-se com ópio e tudo ele esqueceu.

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