domingo, 12 de dezembro de 2010

três e quinze

3'15'' by matheuspismel

(0 - 0’34’’)

Começou. A areia da ampulheta começou a cair, a engrenagem do relógio começou a girar e o sino começou a soar. Começou.

Na inocência do início, ouvem-se os pássaros, o oceano, as árvores, o silêncio.

(0’35’’ – 1’10’’)

O sino não para, soa um alarme.

Surgem os primeiros desafios, utopias, ilusões.

Tinha sonhos.

Queria revoluções.

(1’11’’ – 1’45’’)

As ideias que surgem mudariam gerações.

Mas o espelho não reflete o abstrato.

O fantástico nunca será realidade.

A música é chata; a frequência é a mesma; a repetição agonia.

A música é chata.

A frequência é a mesma.

A repetição agonia.

(1’45’’ – 3’)

Quando o pássaro é de metal, quando o oceano é de vidro, quando a árvore é cinza e o silêncio é pesado,

Os ideais deixam de existir.

Choro, suor, sangue e lama – a guerra começa

E a guerra é o fim.

É a pedra que quebra a ampulheta; que trava as engrenagens.

Soam-se sinos, de luto.

A guerra é o fim.

(3’ – 3’15’’)

No início, ouve-se o choro, de esperança.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

esperança

Às duas manhã os sentimentos daquele homem já não cabiam em sua existência. O choro de agonia misturava-se com um sorriso ingênuo; seus músculos estavam contraídos, imóveis; suas pálpebras, trêmulas, tentavam manter os olhos fechados e na sua mente um turbilhão de emoções - fractais de cores mortas - se revezavam entre os pontos extremos do êxtase e da agonia.
No passado o objetivo que parecia utópico tornou-se concreto como a pedra comprimida entre seus dedos, mas a utopia carregava um caráter tão fantástico que ele nunca havia pensado, e talvez nem quisesse, que um dia tornasse realidade. A perfeição de seus anseios mais profundos saíram do seu mundo de ilusões e passaram a habitar a dimensão terrena, que não aceita a perfeição; o paradoxo de seu sonho e sua realidade pareceram coexistir em harmonia, água e óleo homogeneizados.
Mas quando as densidades distintas resolveram se impôr, não houve lei que contivesse o rompimento. Talvez essa realidade nunca fora real e seu sonho nunca saíra do imaginário; ou talvez a coragem e bravura expressas nas ideias não tiveram intensidade suficiente para manter a utopia verdadeira.
Vagou por convicções baratas e sentimentos rasos. Seu idealismo sublimou-se. Manteve uma felicidade aparente e frágil - suas emoções não a sustentavam. Viveu à base de mentiras.
A revolução não aconteceu; os governos não mudaram; os pensamentos são os mesmos; as atitudes são iguais. Mas ele sobreviveu e agora é só o que importa.