sexta-feira, 16 de novembro de 2012

o rato

Não gostava dele, quer dizer, nunca tive sentimento ruim, ódio nem rancor, entendes? Só não gostava, nunca gostei. 
O vinho tinto já está deixando minha língua mais solta. Eu nem bebo, mas hoje é por justa causa, fiquei muito tenso com o velório do pai. Além do mais, vinho é vinho, né, sempre faz aquela moral. 
Ana, mas o que eu sentia pelo Tião não importa. Pra mim, a questão é como que tu foste te interessar nele, sabes do que estou falando! Ela fugiu com o olhar, sem graça. Desculpe, não foi minha intenção, mas é que te vejo assim, com as olheiras de choro mais belas que já vi, e não posso aguentar. Ele não merece uma gota, nem d’água, nem de mim, o filho único; quanto mais de ti. 
Eu sabia que um dia este dia chegaria. Espero que ela esteja entendendo esta angústia que me consome, porque foram anos de silêncio, de cúmplice compulsório do grande Tião Antunes. E agora ele está morto, e não foi por minha culpa. 
Tenha paciência comigo, ainda estou processando tudo isso e já percebi que não dou conta das ideias só na cabeça. Parece que tenho que falar com alguém pra dar sentido a isso tudo, sabes? Mas vejo que estou sendo inconveniente, estás exausta, até pensei que ias cochilar antes de chegar a sobremesa. Quando acabarmos o pudim de leite, vamos embora, te deixo em casa. Ela balançou as mãos, como se dissesse pra eu largar de frescura e seguir vomitando meus traumas. 
Estou desconfiado que ela esteja mais interessada na história do Tião do que deveria, estou desabafando toda minha vida para uma desconhecida. Não, na verdade, é uma conhecida que conheci hoje, e talvez seja até mais que conhecida - era amante do meu pai, carambas! Além do mais, tenho nada a perder: meu filho já desistiu de mim justamente por causa dele, mora longe daqui, com a mãe. Eu também nunca mais casei, nem namorei; e esse velho tinha uma amante, e não uma qualquer! 
Foi com uns dez anos que descobri tudo, ou quase tudo. É claro que eu não sabia que era crime, mas achava estranho. Aquela intuição bem típica da criança que começa a ficar esperta. Perguntei pra mãe o que era aquilo e ela achou graça, coitada, nunca desconfiou de nada. Uma santa, morreu faz tempo. Foi direto pro céu e vai esperar por ele pra sempre. Ana franziu o nariz, quase fechando também os dois olhos, mas não falou nada. Nenhuma palavra até agora - deve ser outra santa. 
Algum tempo depois, a mãe comentou pro Tião da nossa conversa. Ela não sabia da onde que eu tinha tirado aquelas histórias, estava até meio preocupada com minhas companhias na escola. Estávamos jantando, me lembro bem: arroz integral, abobrinha, feijão preto e frango caipira. O Tião só comia feijão com a carne do dia, quando tinha. E aí, quando ele ouviu o que mãe falou, tirou de repente a coxa de frango da boca toda engordurada e olhou pra mim, mas eu já estava com olhar fixo nos últimos bagos de feijão no prato. Claro, ficou puto da cara, só que não se entregou, começou a dar risada e disse com aquela voz sedutora: “essas crianças de hoje em dia estão muito precoces, mas também, o menino só fica na rua!”. Minha mãe fez que ‘sim’ com a cabeça, com cara de preocupada, mas com um pequeno sorriso amarelo. 
Foi aí que começou meu pesadelo de cúmplice do próprio pai. Ele me contou tudo naquele dia, abriu o jogo mesmo. Eu não sabia bem o que pensar, era uma só uma criança. Tudo que ele me pediu foi segredo absoluto, não podia falar mais nada pra minha mãe. O pior é que a partir daí eu fui perdendo o interesse nela, só queria saber do meu pai. Se bem que é normal, o filho homem tem que ficar mais com o pai mesmo, se não, vai que fica meio afeminado, né, Ana?! 
A verdade é que até meus quinze anos, isso nem incomodava muito. Eu mal pensava, era uma criança tola. Tudo o que eu queria era impressionar meus colegas. O pai sabia e me ajudava: tênis de marca, relógio, boné, essas coisas normais da adolescência. Até o fim do segundo grau foi assim, eu não me importava muito com as coisas do velho, tinha coisas mais importantes pra pensar. Não era fácil se enturmar no colégio em que estudei! 
Tudo bem, eu sei, não é fácil pra ninguém, mas, de qualquer forma, quando fui pra faculdade foi uma época complicada. Cursei Economia e sabe como é, sempre tem um pessoal metido a revolucionário no centro acadêmico. O pior é que fiquei amigo de um deles. É que o cara era muito gente boa e acabei me influenciando. Ele me indicou uns livros do Dostoiévski, Kafka, Benedetti e cheguei até a ler uns capítulos de Marx, vê se pode! E aí, nessa época, fiquei meio revoltado com o Tião. Consegui entender o esquema a fundo e o pior: toda a lógica que envolvia aquilo. Fiquei com muito nojo e resolvi cortar relações com ele. 
O velho ficou com medo que eu falasse de tudo pra todos e começou a apelar pra intimidação: quis cortar minha mesada. Eu bem que tentei uns empregos pra me sustentar e não depender mais dele, mas não consegui nada decente. A vida é mais difícil do que parece... 
Aos poucos fui me afastando do centro acadêmico e dos meus amigos revolucionários. A verdade é que eles me faziam mal. Sem querer, alimentavam meu dilema todos os dias. Pra escapar do sofrimento, resolvi focar nos estudos e me formar logo. 
Que mulher misteriosa, essa Ana. Continua quieta, só me ouvindo. Talvez ela seja psicanalista ou talvez seu luto seja bem maior que o meu. Seus olhares me recriminam e me admiram ao mesmo tempo. Será que ela está me ouvindo?! 
Me diga uma coisa, chegaste a fazer faculdade? Com que trabalhas, Ana? Deu um gole no vinho e lançou um olhar impaciente. Onde é que eu estava mesmo? Ah, então, depois que me formei foi dureza. Só achava emprego que pagava o piso do economista, que era menos do que a mesada que o Tião pagava. 
Fiquei desempregado por um ano, mas conseguia levar bem minha vidinha. Até que veio mais um carma: minha ex-mulher (namorada na época) engravidou. Aí eu não tive saída, fui procurar o velho. 
Pedi desculpas por tudo. Confessei que era cabeça fraca, que tinha sido influenciado por más influências, mas que, nunca, em nenhum momento deixei de amá-lo. Nem eu sei o que tinha de verdade naquele meu desespero; nem o Tião. O que ele sabia era me acalmar: “Filho querido, que felicidade! Não vejo a hora de ser avô.” Pagou toda a festa pra quinhentos convidados e deu entrada num apartamento na Beira-Mar: dois quartos e uma suíte. “Vocês vão precisar”. 
Realmente precisávamos. Queria que meu filho crescesse no melhor dos ambientes e tivesse todas as condições pra ser bem educado. Queria ser um pai exemplar, o oposto do Tião. 
Eu juro que tentei. Fiz tudo o que estava dentro e fora do meu alcance. Mas o menino foi ficando cada vez mais rebelde. E minha ex-mulher ali, me desrespeitando, dando confiança pra ele. Era um saco: todo almoço caía no mesmo assunto. Eles detestavam o Tião, especialmente quando ele resolvia passar lá em casa pra ficar dando palpite. Difícil entender que tudo o que tínhamos era graças a ele - gostássemos ou não. 
No fim das contas, essa ingratidão foi minando as estruturas da família. A gota d’água foi quando meu filho veio me intimando, como se fosse um oficial de justiça, pra eu confessar tudo o que sabia do meu pai. Ele tinha ouvido um diz-que-me-diz na universidade e veio tirar as satisfações comigo. Pra variar, a ex-mulher vinha atrás dele reforçando as acusações. 
Imagina minha situação, Ana. Parecia cena de novela: “ou nós ou ele”. Eles queriam que nos mudássemos pra longe, pra uma cidadezinha de interior, começar uma vida simples do zero e nos livrar de toda a influência do Tião. 
Eu disse que não e não. Como assim?! Não fazia o menor sentido abrir mão de tudo por causa de um ou outro desvio de conduta do Tião. Seria como se nós nos rendêssemos a ele, entendes? Pois é. Eles foram teimosos e se foram. Tenho visto meu filho uma vez por ano. Não é fácil... 
Ou ela está com muito sono ou é muito insensível. Nem uma palavrinha pra me consolar?! Busco por mim próprio: os olhos de Ana são tão fundos e serenos que me acalmam naturalmente. 
- Ataliba, continue, por favor. Ela sorriu discretamente. 
Desculpe, vou tentar ser mais direto agora. Nem sei se deveria contar isso pra ti, que foste tão próxima do Tião. Mas, já que estamos aqui e não tenho mais nada a perder... não é mesmo? 
Quando minha ex-mulher e meu filho se foram, fui transtornado até o escritório do Tião. Cheguei querendo matá-lo e ele, que já sabia de tudo, me recebeu com aquele sorriso cínico. “Senta, meu filho. Aceite este copo de uísque.” Não sentei. Peguei o copo, joguei com toda força na cabeça dele. E desabei no choro. Nem consegui tirar da pasta o revólver que levava comigo. 
Podia tê-lo matado, mas tudo o que causei foi um galo e mais quatro pontos na careca do velho. Ele chamou a secretaria que trouxe gelo e fez um curativo. Logo ele ficou bem. “Estás mais calmo, filho?” Dei um abraço no pai, pedi desculpas e fui embora. Nunca mais tive coragem de voltar no escritório dele. Falamos no telefone uma vez ou outra. Ele também não apareceu mais naquele mesmo apartamento que tanto gostava de ir quando eu ainda tinha família. 
Foi ficando velho e eu fui me afastando, acabei me esquecendo de tudo, nem me importava mais. O velho passou todo o negócio pra um sócio. Foi bom: aliviou minha consciência. 
Mas, hoje, depois da morte dele, voltei a me questionar se eu devia tê-lo matado. 
Afinal, ele assassinava praticamente meia dúzia por semana. Isso sem falar nas mortes indiretas e no suborno de políticos. Engraçado, Ana, o tempo passou e..., no fim das contas, Tião Antunes acabou morrendo de morte morrida, assim, natural. 
- Na verdade, não, Atalibinha: foi arsênico no café. Ela virou o resto de vinho que sobrava na taça e se levantou. 
Me apaixonei de vez. Mas ela nunca mais voltou.

sábado, 3 de novembro de 2012

olhos de luz

Ela sempre o olhava. Ele nunca a percebia.
Certa vez pensou ter cruzado os olhares, mas estava alucinado e não pôde ter certeza. Nos outros dias, simplesmente não a via.
É bem verdade que, por cima, sempre se vê. Por vezes, por baixo, ficou refém dos deuses.
Não que se justifique sua culpa de cego, surdo e mudo.
No sábado passado, finalmente, se encontraram. Providência de Xangô, manhã de novo amor.
Viu a estrela cair em risco branco intenso. Transbordou em outrem seu sorriso guardado.
A estrela riu. Cumpriu sua missão em fração de segundo.
Eles sorriram. O sol apareceu e nunca mais se pôs.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

o herói, o vilão


Que imbecil que eu sou! Pra que é que fui inventar de me pintar nesta fantasia maldita?! Eu sei, eu sei que eu queria chamar atenção na corrida, estava toda a comunidade vendo, tinha uns jornalistas filmando... Se bem que, na verdade, queria mais era se lembrar da minha infância, todo mundo sabe que o Hulk é meu herói preferido, nunca gostei desses magrelos tipo homem-aranha e muito menos do casal Batman e Robin. É, mas e se fosse, qual o problema de querer chamar a atenção? Pelo menos por um momento deixei de ser só o cara que cuida de piscina do outro lado do asfalto. Tinha criança que não parava de correr atrás de mim, teve uma até que me fez parar (perdi umas dez posições por causa disso) pra pedir um autógrafo do Hulk! Meu deus, isso não tem preço, quase chorei na hora. Quando que alguém, uma criança que fosse, ia pedir pra um cuidador de piscina alguma coisa assim?!
Tudo bem, mas isso não interessa nada agora, como sou bobo, nem por isso valeu a pena! Agora estou aqui, com a pele toda, toda verde! Saio na rua e as crianças agora só dão risada e isso ainda é o de menos, o pior é o pessoal todo mundo me olhando e balançando a cabeça, como se eu fosse monstro de verdade! Será que eles acham que eu realmente quero ser o Hulk pra sempre? Mesmo depois de 20 banhos a porcaria da tinta não sai! E ainda tem o pior problema de todos: Como é que eu vou trabalhar amanhã? Ainda bem que a corrida foi ontem e ainda tenho hoje pra tentar me lavar, mas amanhã eu já tenho que ir pro trabalho. Se eu não for, meu amigo, estou no olho da rua na hora, já fiquei sabendo que tem três na fila de espera, como se o emprego fosse grande coisa...
Aaaah, já sei! Nem vou pro trabalho, vou ligar pro chefe amanhã mesmo e pedir a conta. Não aguento mais ficar cuidando de criança mimada que quase se afoga todo dia. Eu vou é aproveitar esta desgraça pra mudar a minha vida! Amanhã mesmo vou ligar pro advogado aqui da ONG pra meter um processo nesta marca vagabunda de maquiagem. Talvez até role processar o dono do mercadão de Madureira também. Que maravilha! Como não pensei nisso antes? Capaz de tirar uns 200 mil! Já estou até vendo a manchete no jornal: “Paulo Henrique do Santos é o novo milionário do Complexo do Alemão”. Não, não, não! Não se iluda, moleque! Este tipo de coisa demora pra cacete, ainda mais pra gente que é pobre, que a justiça é mais devagar do que fila de hospital.
Falando em hospital, tenho que me concentrar é na realidade. Durante a corrida, eu lembro que tive uma coceira danada. Até agora estou sentindo meu braço meio estranho. Será que esta maquiagem está me dando alergia? Meu deus, o pior é que nem sei se a minha pele está vermelha de irritação, está tudo verde!
A culpa é do vendedor. Quando cheguei ao mercadão, eu perguntei pra ele: “Seguinte, quero uma tinta verde pra me pintar de Hulk”. Mas claro que não era pra ser pra sempre, e o cara me dá esta porcaria que não sai de jeito nenhum. Paguei 37,90 em cada lata, que prejuízo... Pelo menos não tive que comprar a farinha de trigo, que tinha lá na casa da Silvinha, minha vizinha.
Farinha, a cola de farinha! Como sou injusto, já ia culpando o pobre do vendedor. A culpa é da Silvinha, ela que fez a mistura da tinta verde, ela que botou farinha na mistura! Só pode ser isso, agora estou todo colado de tinta de verde de farinha. Vou matar a Silvinha! Não, que isso? Quem vê pensa que sou vilão, e não sou super-herói. Eu vou só dar um esporro muito grande nela, que é uma querida, que não merece ouvir nada disso. Eu não vou brigar nem nada. Ponto. Só vou ter uma conversa séria. Nossa, que saudade que bateu da Silvinha agora. Pensando bem, ela foi muito querida por ter ficado o dia inteiro (das 9 da manhã até 7 da noite) me ajudando a fazer esta fantasia. Será que ela comentou alguma coisa da farinha? Agora não importa. Melhor se esquecer desta história, o importante que eu quero fazer uma visita para ela. Não, mas eu preciso lembrar pra saber porque é que esta tinta não sai, pra saber como que voltar à forma humana, cacete! Ou melhor, agora só preciso saber o culpado!
Quem é que mandou misturar farinha na tinta, cacete?!
Bom, eu – sei lá... É, melhor esquecer mesmo. Nem vou tocar mais neste assunto. Estou indo pra casa da Silvinha e vou mandar ela me lavar até sair esta maldita pele verde.


Narrativa baseada na notícia “Homem que correu fantasiado de Hulk não consegue voltar à ‘forma humana’”, do site do jornal Extra, disponível em extra.globo.com/noticias/rio/homem-que-correu-fantasiado-de-hulk-nao-consegue-voltar-forma-humana-5038019.html

sábado, 7 de abril de 2012

pescaria

Depois de um ano no deserto, o pescador volta à praia.

Seu barco ainda está lá, encalhado na areia, descascado pelo sol e cheirando a maresia. O limo agora cobre quase toda a proa que, na maré cheia, fora lambida tantas vezes pela espuma salgada do mar. A popa, por outro lado, está mais seca do que nunca – mesmo no pico da enchente, as marolas não a alcançam. Tornou-se o berçário perfeito para a mamãe quero-quero, que agora coloca seus ovos no vazio onde estaria o motor que nunca fora comprado. O barco de madeira, de 12 pés, sempre navegara com dois remos velhos, que nunca mais seriam encontrados.

Descalçou as sandálias de dedo e correu em direção ao velho companheiro de mar. Beijou o casco, subiu a bordo, pôs-se em direção de sentido e anunciou o retorno. “Marujos, companheiros, depois de um ano enfrentando as privações que a aridez me conferiu, estou de volta para avançarmos ao imenso oceano e navegar nas farturas que só essas águas podem oferecer!”. A seus pés calejados, que fugiam das farpas de madeira, dois siris escutavam, distraídos, procurando o buraco que os levaria de volta à areia quente.

O cansaço era grande, mas a ansiedade era muito maior – tinha que ir ao centro da cidade comprar novos mantimentos.

A pracinha ainda está lá, rodeada pela Igreja, pela Prefeitura e pelo Fórum e também pela mercearia, pela farmácia e pelo boteco. No centro, um chafariz de cimento, sem água, virara refeitório das centenas de pombas, abastecido pelas crianças depois das missas de domingo. Dos quatro bancos da praça, um estava quebrado; outros dois, ocupados por carolas que, com rosários nas mãos, esperavam a hora da missa; e o último servia de cama, forrado com jornal, para um bêbado da cidade.

Um arrepio de êxtase e nostalgia passou pela espinha do pescador que voltava para casa. Queria ir logo para o boteco, comprar cigarros e tomar um trago, mas sua moral cristã o obrigou a passar pela Igreja. Ajoelhou-se na frente da Nossa Senhora dos Navegantes e rezou dez ave-marias em dois minutos, afinal, a mãe dos mares sabia que ele não tinha muito tempo a perder.

No boteco, encontrou alguns velhos parceiros de bar, que o cumprimentaram com tapinhas nas costas. Comprou seis maços de cigarro, sem filtro e sem contraindicação e, num copo fosco de velho, cheirando a sabão de coco, deu três tragos de cana para apurar os sentidos. Antes de se despedir, anuncio o retorno. “Marujos, companheiros, depois de um ano enfrentando as privações que a aridez me conferiu, estou de volta para avançarmos ao imenso oceano e navegar nas farturas que só essas águas podem oferecer!”. Um dos bêbados, que o assistia com faróis baixos, não conteve um soluço; outros lhe ofereceram mais cachaça; o resto continuou bebendo cerveja e cachaça e comendo rollmops e bolinhos de siri.

Faltava pouco para poder voltar à areia e em seguida ao mar. Foi à mercearia e comprou três quilos de farinha de trigo, duas caixas de fósforo, óleo de soja e um galão de água vazio, que depois o encheria na bica perto da praia. Enquanto passava entre as prateleiras de comida e de não-comida, as duas únicas do lugar, chutou sem querer uma pequena panela de alumínio, que devia servir para as goteiras nos dias de chuva. Olhou para o caixa, era a filha mais nova da dona da mercearia, que nem ouviu o barulho, estava concentrada em lixar as unhas da mão esquerda, apoiada sobre um pote de pé-de-moleque. O pescador percebeu a distração e escondeu a panelinha dentro da camisa, nas costas. Pagou a conta e conseguiu roubar. Mas não fora um crime, afinal, se tivesse tempo, convenceria a caixa que a panela seria para um causa nobre.

De volta à praia, descarregou as compras no barco, inclusive o galão, já cheio de água doce e cristalina. Foi, então, ao rancho da colônia dos pescadores, precisava de uma tarrafa e de um remo. O casebre de madeira azul clara, com a inscrição colônia B-28, em vermelho, ainda está lá, no canto direito da praia, à beira-mar. Fora lugar de memoráveis reuniões e confraternizações dos mais célebres marujos e pescadores da região. Logo após a entrada, entre dois pilares, uma placa indica o Memorial dos Homens do Mar, feito por retratos, apoiados sobre um casco de madeira, de pescadores mortos em acidentes marítimos de toda sorte. Velas apagadas e flores murchas rodeam as fotos empoeiradas. O pescador não se contém, deixa cair uma lágrima sobre um cinzeiro que alguém esqueceu no altar.

Levanta a cabeça e olha para os lados, só encontra um velho companheiro de mar, num canto, sentado sobre uma caixa de batatas, fumando um cigarro de palha. Recompõe-se e anuncia o retorno. “Marujos, companheiros, depois de um ano enfrentando as privações que a aridez me conferiu, estou de volta para avançarmos ao imenso oceano e navegar nas farturas que só essas águas podem oferecer!”. Mas, para isso, o pescador precisa de um remo e uma tarrafa. O velho apaga o cigarrinho, suspira e diz que pode pegar o remo que está encostado na parede, atrás de uma canoa, mas a tarrafa ele não pode emprestar, quer vendê-la, largar a pesca e passar um tempo no deserto. O pescador insiste, mas o velho resiste. Acabou saindo só com o remo na mão.

Andou poucos metros, cabisbaixo, com o remo apoiado no ombro e na areia, criando um trilho entre conchas e algas, até tropeçar em um tronco trazido pelo mar e deixar o remo o cair. Fita o pedaço de madeira e o levanta, descalça as sandálias e volta para o rancho correndo, empunhando o remo com a pá para frente, até encontrar a cabeça do velho, que fumava seu último cigarrinho de palha.

Por um momento, o sangue espirrado na parede e no chão comoveu o pescador, mas o sacrifício fora necessário, afinal, o velho não passava de um desertor que não queria dar-lhe uma rede para a pesca.

Foram dez dias no mar. Só saía do barco quando encontrava algum banco de areia para acender uma fogueira, fritar um peixinho e esquentar o pirão. Pescou trinta peixes, comeu vinte na empreitada e outros dez foram vendidos para um turista, na beira do mar, quando voltou. Juntou o dinheiro e foi para o boteco, tomou cerveja e cachaça e comeu só rollmops, porque os bolinhos eram caros.

Quando um antigo pescador, bêbado, doido varrido, que passara alguns anos cidade, foi ao bar tentar convencer os boêmios a voltar para a pesca, não conteve um soluço e ofereceu-lhe um trago de cachaça.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

hora do recreio

- Desce logo que vem carro atrás!

- Tá, tchau...

Saí do carro e fui em direção à universidade. Depois de alguns passos, olhei as horas no punho esquerdo. Era 13:28, segundo o relógio digital. Que estranho, pensei que tinha colocado o analógico hoje de manhã, nunca mais tinha usado esse digital. Ah, deve ter sido o sonambulismo das primeiras horas do dia. De qualquer forma, faltavam só dois minutos pra começar minha aula na faculdade. Apressei o passo e consegui chegar a tempo.

Não estava gostando muito da aula. Parecia que eu já tinha ouvido tudo aquilo em algum lugar e, talvez, estivesse sendo didática demais. Mas tudo bem, nunca gostei muito de Ciências mesmo. Percebi o fim da aula com o som alto de uma sirene. Meus colegas ficaram impacientes, querendo se levantar, mas só saímos depois que o professor liberou.

No recreio, – que engraçada esta palavra – abri minha mochila e, dentro, havia uma lancheira com um bauru, uma maçã e um suco de caixinha. Achei maravilho, apesar de não entender muito bem como aquilo fora parar ali. Na verdade, o sanduba estava tão bom que parecia ter sido preparado pela minha mãe.

Feito o lanchinho, fui ao banheiro. Os mictórios estavam vazios; as cabines, todas ocupadas. Parecia que o pessoal tinha vergonha de fazer xixi um do lado outro. Ou talvez eles não alcançassem o mictório. Sei lá, eu fiz ali mesmo. Em seguida, quando fui lavar as mãos, me olhei no espelho e vi que meu cabelo estava mais liso que o normal, cabelo de índio, corte de pinico.

A sirene tocou de novo. Eu não queria voltar pra aula, mas sabia que era impossível gazear. Imagina se alguém descobre, imagina se minha mãe descobre!! Mas eu não podia voltar pra sala. Não sabia o motivo, mas eu simplesmente não podia voltar.

Então, num ato rebelde, me escondi dos alunos e dos professores e saí de fininho da escola, quando a barra já estava limpa. Na rua, tentava encontrar um motivo da fuga, mas nada vinha à mente. Peguei meu celular. Celular? Eu mal sabia mexer, tinha acabado de ganhar um da minha vó. Fui direto para os joguinhos. Tentei me entreter, mas não estava com paciência, estava inquieto.

Comecei a passear pelas funções do aparelho, então. Passei pelas configurações, chamadas, mensagens, lembretes. Tudo muito chato, até entrar na agenda. Realmente gostei desta ferramenta, a agenda. Fiquei ansioso, descia sem parar nomes e mais nomes, até que, finalmente, lembrei! Lembrei que tinha esquecido alguma coisa naquele carro.

Apertei o botão verde e o telefone começou a chamar. Olhei para meu punho esquerdo e lá estava meu relógio de ponteiros.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

providência

Eu estava no fundo do ônibus, naquela última fileira, e ocupava três lugares. No meu lado direito, o banco da janela, deixei minha mochila e meu violão e, à minha esquerda, minha mala de rodinhas com roupa suja. Uma senhora morena, com rosto marcado por rugas e olhar cansado sentava à frente do violão e apoiava a cabeça na janela. No outro canto da última fileira, estava uma moça simples de uns 20 anos e na frente dela, outra moça simples de uns 20 anos. Nos outros lugares perto de mim não tinha mais ninguém.

Depois de uns cinco minutos de passeio, entrou um velho de mais ou menos 60 anos. Usava um pulôver azul marinho, uma camisa social azul claro por baixo, jeans e sapato. O cocuruto já estava careca e sua barba era branca e rala. Seus óculos de armação fina e dourada e lentes grossas, somados a um ar de aristocracia, pareciam entregar seu sofrimento por estar no coletivo.

Coloquei minha mala no colo, mas o velho sentou na minha frente – com metade da bunda para fora do assento e as costas na diagonal – ao lado da senhora que, para ele, podia ser sua faxineira. Do alto de sua cara fechada, olhou a mulher de cima a baixo, que percebeu e revidou com um olhar cabreiro. O velho, por sua vez, mandou a tréplica, agora com um ar de superioridade e nojo. Nenhuma palavra foi pronunciada.

Mais umas três, quatro paradas e entra um casal de jovens pombinhos. O rapaz tinha, no máximo 19 anos, era narigudo, tinha rosto e cabelo ensebados e vestia um moletom canguru preto. Transmitia insegurança, quando falava não se ouvia nada. A moça era o oposto, falava muito e alto demais e, apesar de ser toda desengonçada, parecia ter muito amor para dar.

Botei minha mala de roupa suja no colo de novo. Desta vez, o assento em que a mala descansava foi ocupado logo depois – a menina sentou sua bunda mole ao meu lado, entre eu e seu suposto namorado. No início trocaram carícias contidas e conversaram um pouco. Ela só falava merda e o cara só concordava.

Depois de mais uns cinco minutos na grande lata coletiva, a moça simples de uns 20 anos que estava na penúltima fileira puxou a cordinha e tomou seu rumo. Mal ela saiu e o casalzinho se levantou e pulou para o lugar vagado. O casal brigou pelo banco da janela como dois irmãos tolos que brigam todo dia. Ele ganhou e, para comemorar, lançou um baita sorriso maroto para amada.

Voltei minha mala de rodinhas para o assento ao meu lado esquerdo, para felicidade das minhas pernas.

Por longos minutos o casal manteve um entrelaçamento de mãos, pernas e línguas, para horror do velho, que agora estava na mesma fileira dos dois, separado apenas pelo corredor. A cada barulhinho de saliva ou estalo de lábios, a barriga dele parecia se embrulhar e, como que por instinto, olhava com nojo e reprovação para os dois pombinhos que, felizes da vida, nem notavam o moralista.

Foi na última parada, antes de o ônibus entrar no terminal, que o velho desceu – o ponto da Assembleia Legislativa, a casa das leis. Na calçada, dois negões e um cara com dreads andavam tranquilamente.

Parou nos degraus, por um instante, ao perceber os três pedestres que se aproximavam. E olhou para os dois lados, com medo, à procura de uma saída segura.

De repente, ficou tranquilo e desceu do ônibus.

Tentei imaginar o motivo da súbita confiança do velho. Talvez eu tivesse sido preconceituoso, talvez ele só hesitara nos degraus por não ter certeza do ponto onde deveria parar.

Então, torci todo o meu pescoço à direita, para tentar alcançá-lo com os olhos. Quanta tranquilidade, seu rosto até estava iluminado! – de azul e vermelho, que se revezavam com o giro das sirenes.

Duas viaturas, cercadas por uns quinze policiais mal encarados, que exibiam pistolas ou fuzis, estavam estacionadas logo atrás. Ainda bem. Se eles não estivessem ali, com certeza, o pobre velhinho passaria por apuros. Mais uma vez, os homem mostraram que o bem sempre vence o mal.

domingo, 12 de dezembro de 2010

três e quinze

3'15'' by matheuspismel

(0 - 0’34’’)

Começou. A areia da ampulheta começou a cair, a engrenagem do relógio começou a girar e o sino começou a soar. Começou.

Na inocência do início, ouvem-se os pássaros, o oceano, as árvores, o silêncio.

(0’35’’ – 1’10’’)

O sino não para, soa um alarme.

Surgem os primeiros desafios, utopias, ilusões.

Tinha sonhos.

Queria revoluções.

(1’11’’ – 1’45’’)

As ideias que surgem mudariam gerações.

Mas o espelho não reflete o abstrato.

O fantástico nunca será realidade.

A música é chata; a frequência é a mesma; a repetição agonia.

A música é chata.

A frequência é a mesma.

A repetição agonia.

(1’45’’ – 3’)

Quando o pássaro é de metal, quando o oceano é de vidro, quando a árvore é cinza e o silêncio é pesado,

Os ideais deixam de existir.

Choro, suor, sangue e lama – a guerra começa

E a guerra é o fim.

É a pedra que quebra a ampulheta; que trava as engrenagens.

Soam-se sinos, de luto.

A guerra é o fim.

(3’ – 3’15’’)

No início, ouve-se o choro, de esperança.