sexta-feira, 16 de novembro de 2012
o rato
sábado, 3 de novembro de 2012
olhos de luz
sexta-feira, 1 de junho de 2012
o herói, o vilão
sábado, 7 de abril de 2012
pescaria
Depois de um ano no deserto, o pescador volta à praia.
Seu barco ainda está lá, encalhado na areia, descascado pelo sol e cheirando a maresia. O limo agora cobre quase toda a proa que, na maré cheia, fora lambida tantas vezes pela espuma salgada do mar. A popa, por outro lado, está mais seca do que nunca – mesmo no pico da enchente, as marolas não a alcançam. Tornou-se o berçário perfeito para a mamãe quero-quero, que agora coloca seus ovos no vazio onde estaria o motor que nunca fora comprado. O barco de madeira, de 12 pés, sempre navegara com dois remos velhos, que nunca mais seriam encontrados.
Descalçou as sandálias de dedo e correu em direção ao velho companheiro de mar. Beijou o casco, subiu a bordo, pôs-se em direção de sentido e anunciou o retorno. “Marujos, companheiros, depois de um ano enfrentando as privações que a aridez me conferiu, estou de volta para avançarmos ao imenso oceano e navegar nas farturas que só essas águas podem oferecer!”. A seus pés calejados, que fugiam das farpas de madeira, dois siris escutavam, distraídos, procurando o buraco que os levaria de volta à areia quente.
O cansaço era grande, mas a ansiedade era muito maior – tinha que ir ao centro da cidade comprar novos mantimentos.
A pracinha ainda está lá, rodeada pela Igreja, pela Prefeitura e pelo Fórum e também pela mercearia, pela farmácia e pelo boteco. No centro, um chafariz de cimento, sem água, virara refeitório das centenas de pombas, abastecido pelas crianças depois das missas de domingo. Dos quatro bancos da praça, um estava quebrado; outros dois, ocupados por carolas que, com rosários nas mãos, esperavam a hora da missa; e o último servia de cama, forrado com jornal, para um bêbado da cidade.
Um arrepio de êxtase e nostalgia passou pela espinha do pescador que voltava para casa. Queria ir logo para o boteco, comprar cigarros e tomar um trago, mas sua moral cristã o obrigou a passar pela Igreja. Ajoelhou-se na frente da Nossa Senhora dos Navegantes e rezou dez ave-marias em dois minutos, afinal, a mãe dos mares sabia que ele não tinha muito tempo a perder.
No boteco, encontrou alguns velhos parceiros de bar, que o cumprimentaram com tapinhas nas costas. Comprou seis maços de cigarro, sem filtro e sem contraindicação e, num copo fosco de velho, cheirando a sabão de coco, deu três tragos de cana para apurar os sentidos. Antes de se despedir, anuncio o retorno. “Marujos, companheiros, depois de um ano enfrentando as privações que a aridez me conferiu, estou de volta para avançarmos ao imenso oceano e navegar nas farturas que só essas águas podem oferecer!”. Um dos bêbados, que o assistia com faróis baixos, não conteve um soluço; outros lhe ofereceram mais cachaça; o resto continuou bebendo cerveja e cachaça e comendo rollmops e bolinhos de siri.
Faltava pouco para poder voltar à areia e em seguida ao mar. Foi à mercearia e comprou três quilos de farinha de trigo, duas caixas de fósforo, óleo de soja e um galão de água vazio, que depois o encheria na bica perto da praia. Enquanto passava entre as prateleiras de comida e de não-comida, as duas únicas do lugar, chutou sem querer uma pequena panela de alumínio, que devia servir para as goteiras nos dias de chuva. Olhou para o caixa, era a filha mais nova da dona da mercearia, que nem ouviu o barulho, estava concentrada em lixar as unhas da mão esquerda, apoiada sobre um pote de pé-de-moleque. O pescador percebeu a distração e escondeu a panelinha dentro da camisa, nas costas. Pagou a conta e conseguiu roubar. Mas não fora um crime, afinal, se tivesse tempo, convenceria a caixa que a panela seria para um causa nobre.
De volta à praia, descarregou as compras no barco, inclusive o galão, já cheio de água doce e cristalina. Foi, então, ao rancho da colônia dos pescadores, precisava de uma tarrafa e de um remo. O casebre de madeira azul clara, com a inscrição colônia B-28, em vermelho, ainda está lá, no canto direito da praia, à beira-mar. Fora lugar de memoráveis reuniões e confraternizações dos mais célebres marujos e pescadores da região. Logo após a entrada, entre dois pilares, uma placa indica o Memorial dos Homens do Mar, feito por retratos, apoiados sobre um casco de madeira, de pescadores mortos em acidentes marítimos de toda sorte. Velas apagadas e flores murchas rodeam as fotos empoeiradas. O pescador não se contém, deixa cair uma lágrima sobre um cinzeiro que alguém esqueceu no altar.
Levanta a cabeça e olha para os lados, só encontra um velho companheiro de mar, num canto, sentado sobre uma caixa de batatas, fumando um cigarro de palha. Recompõe-se e anuncia o retorno. “Marujos, companheiros, depois de um ano enfrentando as privações que a aridez me conferiu, estou de volta para avançarmos ao imenso oceano e navegar nas farturas que só essas águas podem oferecer!”. Mas, para isso, o pescador precisa de um remo e uma tarrafa. O velho apaga o cigarrinho, suspira e diz que pode pegar o remo que está encostado na parede, atrás de uma canoa, mas a tarrafa ele não pode emprestar, quer vendê-la, largar a pesca e passar um tempo no deserto. O pescador insiste, mas o velho resiste. Acabou saindo só com o remo na mão.
Andou poucos metros, cabisbaixo, com o remo apoiado no ombro e na areia, criando um trilho entre conchas e algas, até tropeçar em um tronco trazido pelo mar e deixar o remo o cair. Fita o pedaço de madeira e o levanta, descalça as sandálias e volta para o rancho correndo, empunhando o remo com a pá para frente, até encontrar a cabeça do velho, que fumava seu último cigarrinho de palha.
Por um momento, o sangue espirrado na parede e no chão comoveu o pescador, mas o sacrifício fora necessário, afinal, o velho não passava de um desertor que não queria dar-lhe uma rede para a pesca.
Foram dez dias no mar. Só saía do barco quando encontrava algum banco de areia para acender uma fogueira, fritar um peixinho e esquentar o pirão. Pescou trinta peixes, comeu vinte na empreitada e outros dez foram vendidos para um turista, na beira do mar, quando voltou. Juntou o dinheiro e foi para o boteco, tomou cerveja e cachaça e comeu só rollmops, porque os bolinhos eram caros.
Quando um antigo pescador, bêbado, doido varrido, que passara alguns anos cidade, foi ao bar tentar convencer os boêmios a voltar para a pesca, não conteve um soluço e ofereceu-lhe um trago de cachaça.
terça-feira, 20 de setembro de 2011
hora do recreio
- Desce logo que vem carro atrás!
- Tá, tchau...
Saí do carro e fui em direção à universidade. Depois de alguns passos, olhei as horas no punho esquerdo. Era 13:28, segundo o relógio digital. Que estranho, pensei que tinha colocado o analógico hoje de manhã, nunca mais tinha usado esse digital. Ah, deve ter sido o sonambulismo das primeiras horas do dia. De qualquer forma, faltavam só dois minutos pra começar minha aula na faculdade. Apressei o passo e consegui chegar a tempo.
Não estava gostando muito da aula. Parecia que eu já tinha ouvido tudo aquilo em algum lugar e, talvez, estivesse sendo didática demais. Mas tudo bem, nunca gostei muito de Ciências mesmo. Percebi o fim da aula com o som alto de uma sirene. Meus colegas ficaram impacientes, querendo se levantar, mas só saímos depois que o professor liberou.
No recreio, – que engraçada esta palavra – abri minha mochila e, dentro, havia uma lancheira com um bauru, uma maçã e um suco de caixinha. Achei maravilho, apesar de não entender muito bem como aquilo fora parar ali. Na verdade, o sanduba estava tão bom que parecia ter sido preparado pela minha mãe.
Feito o lanchinho, fui ao banheiro. Os mictórios estavam vazios; as cabines, todas ocupadas. Parecia que o pessoal tinha vergonha de fazer xixi um do lado outro. Ou talvez eles não alcançassem o mictório. Sei lá, eu fiz ali mesmo. Em seguida, quando fui lavar as mãos, me olhei no espelho e vi que meu cabelo estava mais liso que o normal, cabelo de índio, corte de pinico.
A sirene tocou de novo. Eu não queria voltar pra aula, mas sabia que era impossível gazear. Imagina se alguém descobre, imagina se minha mãe descobre!! Mas eu não podia voltar pra sala. Não sabia o motivo, mas eu simplesmente não podia voltar.
Então, num ato rebelde, me escondi dos alunos e dos professores e saí de fininho da escola, quando a barra já estava limpa. Na rua, tentava encontrar um motivo da fuga, mas nada vinha à mente. Peguei meu celular. Celular? Eu mal sabia mexer, tinha acabado de ganhar um da minha vó. Fui direto para os joguinhos. Tentei me entreter, mas não estava com paciência, estava inquieto.
Comecei a passear pelas funções do aparelho, então. Passei pelas configurações, chamadas, mensagens, lembretes. Tudo muito chato, até entrar na agenda. Realmente gostei desta ferramenta, a agenda. Fiquei ansioso, descia sem parar nomes e mais nomes, até que, finalmente, lembrei! Lembrei que tinha esquecido alguma coisa naquele carro.
Apertei o botão verde e o telefone começou a chamar. Olhei para meu punho esquerdo e lá estava meu relógio de ponteiros.
quinta-feira, 19 de maio de 2011
providência
Eu estava no fundo do ônibus, naquela última fileira, e ocupava três lugares. No meu lado direito, o banco da janela, deixei minha mochila e meu violão e, à minha esquerda, minha mala de rodinhas com roupa suja. Uma senhora morena, com rosto marcado por rugas e olhar cansado sentava à frente do violão e apoiava a cabeça na janela. No outro canto da última fileira, estava uma moça simples de uns 20 anos e na frente dela, outra moça simples de uns 20 anos. Nos outros lugares perto de mim não tinha mais ninguém.
Depois de uns cinco minutos de passeio, entrou um velho de mais ou menos 60 anos. Usava um pulôver azul marinho, uma camisa social azul claro por baixo, jeans e sapato. O cocuruto já estava careca e sua barba era branca e rala. Seus óculos de armação fina e dourada e lentes grossas, somados a um ar de aristocracia, pareciam entregar seu sofrimento por estar no coletivo.
Coloquei minha mala no colo, mas o velho sentou na minha frente – com metade da bunda para fora do assento e as costas na diagonal – ao lado da senhora que, para ele, podia ser sua faxineira. Do alto de sua cara fechada, olhou a mulher de cima a baixo, que percebeu e revidou com um olhar cabreiro. O velho, por sua vez, mandou a tréplica, agora com um ar de superioridade e nojo. Nenhuma palavra foi pronunciada.
Mais umas três, quatro paradas e entra um casal de jovens pombinhos. O rapaz tinha, no máximo 19 anos, era narigudo, tinha rosto e cabelo ensebados e vestia um moletom canguru preto. Transmitia insegurança, quando falava não se ouvia nada. A moça era o oposto, falava muito e alto demais e, apesar de ser toda desengonçada, parecia ter muito amor para dar.
Botei minha mala de roupa suja no colo de novo. Desta vez, o assento em que a mala descansava foi ocupado logo depois – a menina sentou sua bunda mole ao meu lado, entre eu e seu suposto namorado. No início trocaram carícias contidas e conversaram um pouco. Ela só falava merda e o cara só concordava.
Depois de mais uns cinco minutos na grande lata coletiva, a moça simples de uns 20 anos que estava na penúltima fileira puxou a cordinha e tomou seu rumo. Mal ela saiu e o casalzinho se levantou e pulou para o lugar vagado. O casal brigou pelo banco da janela como dois irmãos tolos que brigam todo dia. Ele ganhou e, para comemorar, lançou um baita sorriso maroto para amada.
Voltei minha mala de rodinhas para o assento ao meu lado esquerdo, para felicidade das minhas pernas.
Por longos minutos o casal manteve um entrelaçamento de mãos, pernas e línguas, para horror do velho, que agora estava na mesma fileira dos dois, separado apenas pelo corredor. A cada barulhinho de saliva ou estalo de lábios, a barriga dele parecia se embrulhar e, como que por instinto, olhava com nojo e reprovação para os dois pombinhos que, felizes da vida, nem notavam o moralista.
Foi na última parada, antes de o ônibus entrar no terminal, que o velho desceu – o ponto da Assembleia Legislativa, a casa das leis. Na calçada, dois negões e um cara com dreads andavam tranquilamente.
Parou nos degraus, por um instante, ao perceber os três pedestres que se aproximavam. E olhou para os dois lados, com medo, à procura de uma saída segura.
De repente, ficou tranquilo e desceu do ônibus.
Tentei imaginar o motivo da súbita confiança do velho. Talvez eu tivesse sido preconceituoso, talvez ele só hesitara nos degraus por não ter certeza do ponto onde deveria parar.
Então, torci todo o meu pescoço à direita, para tentar alcançá-lo com os olhos. Quanta tranquilidade, seu rosto até estava iluminado! – de azul e vermelho, que se revezavam com o giro das sirenes.
Duas viaturas, cercadas por uns quinze policiais mal encarados, que exibiam pistolas ou fuzis, estavam estacionadas logo atrás. Ainda bem. Se eles não estivessem ali, com certeza, o pobre velhinho passaria por apuros. Mais uma vez, os homem mostraram que o bem sempre vence o mal.
domingo, 12 de dezembro de 2010
três e quinze
(0 - 0’34’’)
Começou. A areia da ampulheta começou a cair, a engrenagem do relógio começou a girar e o sino começou a soar. Começou.
Na inocência do início, ouvem-se os pássaros, o oceano, as árvores, o silêncio.
(0’35’’ – 1’10’’)
O sino não para, soa um alarme.
Surgem os primeiros desafios, utopias, ilusões.
Tinha sonhos.
Queria revoluções.
(1’11’’ – 1’45’’)
As ideias que surgem mudariam gerações.
Mas o espelho não reflete o abstrato.
O fantástico nunca será realidade.
A música é chata; a frequência é a mesma; a repetição agonia.
A música é chata.
A frequência é a mesma.
A repetição agonia.
(1’45’’ – 3’)
Quando o pássaro é de metal, quando o oceano é de vidro, quando a árvore é cinza e o silêncio é pesado,
Os ideais deixam de existir.
Choro, suor, sangue e lama – a guerra começa
E a guerra é o fim.
É a pedra que quebra a ampulheta; que trava as engrenagens.
Soam-se sinos, de luto.
A guerra é o fim.
(3’ – 3’15’’)
No início, ouve-se o choro, de esperança.
