- Desce logo que vem carro atrás!
- Tá, tchau...
Saí do carro e fui em direção à universidade. Depois de alguns passos, olhei as horas no punho esquerdo. Era 13:28, segundo o relógio digital. Que estranho, pensei que tinha colocado o analógico hoje de manhã, nunca mais tinha usado esse digital. Ah, deve ter sido o sonambulismo das primeiras horas do dia. De qualquer forma, faltavam só dois minutos pra começar minha aula na faculdade. Apressei o passo e consegui chegar a tempo.
Não estava gostando muito da aula. Parecia que eu já tinha ouvido tudo aquilo em algum lugar e, talvez, estivesse sendo didática demais. Mas tudo bem, nunca gostei muito de Ciências mesmo. Percebi o fim da aula com o som alto de uma sirene. Meus colegas ficaram impacientes, querendo se levantar, mas só saímos depois que o professor liberou.
No recreio, – que engraçada esta palavra – abri minha mochila e, dentro, havia uma lancheira com um bauru, uma maçã e um suco de caixinha. Achei maravilho, apesar de não entender muito bem como aquilo fora parar ali. Na verdade, o sanduba estava tão bom que parecia ter sido preparado pela minha mãe.
Feito o lanchinho, fui ao banheiro. Os mictórios estavam vazios; as cabines, todas ocupadas. Parecia que o pessoal tinha vergonha de fazer xixi um do lado outro. Ou talvez eles não alcançassem o mictório. Sei lá, eu fiz ali mesmo. Em seguida, quando fui lavar as mãos, me olhei no espelho e vi que meu cabelo estava mais liso que o normal, cabelo de índio, corte de pinico.
A sirene tocou de novo. Eu não queria voltar pra aula, mas sabia que era impossível gazear. Imagina se alguém descobre, imagina se minha mãe descobre!! Mas eu não podia voltar pra sala. Não sabia o motivo, mas eu simplesmente não podia voltar.
Então, num ato rebelde, me escondi dos alunos e dos professores e saí de fininho da escola, quando a barra já estava limpa. Na rua, tentava encontrar um motivo da fuga, mas nada vinha à mente. Peguei meu celular. Celular? Eu mal sabia mexer, tinha acabado de ganhar um da minha vó. Fui direto para os joguinhos. Tentei me entreter, mas não estava com paciência, estava inquieto.
Comecei a passear pelas funções do aparelho, então. Passei pelas configurações, chamadas, mensagens, lembretes. Tudo muito chato, até entrar na agenda. Realmente gostei desta ferramenta, a agenda. Fiquei ansioso, descia sem parar nomes e mais nomes, até que, finalmente, lembrei! Lembrei que tinha esquecido alguma coisa naquele carro.
Apertei o botão verde e o telefone começou a chamar. Olhei para meu punho esquerdo e lá estava meu relógio de ponteiros.
