Às duas manhã os sentimentos daquele homem já não cabiam em sua existência. O choro de agonia misturava-se com um sorriso ingênuo; seus músculos estavam contraídos, imóveis; suas pálpebras, trêmulas, tentavam manter os olhos fechados e na sua mente um turbilhão de emoções - fractais de cores mortas - se revezavam entre os pontos extremos do êxtase e da agonia.
No passado o objetivo que parecia utópico tornou-se concreto como a pedra comprimida entre seus dedos, mas a utopia carregava um caráter tão fantástico que ele nunca havia pensado, e talvez nem quisesse, que um dia tornasse realidade. A perfeição de seus anseios mais profundos saíram do seu mundo de ilusões e passaram a habitar a dimensão terrena, que não aceita a perfeição; o paradoxo de seu sonho e sua realidade pareceram coexistir em harmonia, água e óleo homogeneizados.
Mas quando as densidades distintas resolveram se impôr, não houve lei que contivesse o rompimento. Talvez essa realidade nunca fora real e seu sonho nunca saíra do imaginário; ou talvez a coragem e bravura expressas nas ideias não tiveram intensidade suficiente para manter a utopia verdadeira.
Vagou por convicções baratas e sentimentos rasos. Seu idealismo sublimou-se. Manteve uma felicidade aparente e frágil - suas emoções não a sustentavam. Viveu à base de mentiras.
A revolução não aconteceu; os governos não mudaram; os pensamentos são os mesmos; as atitudes são iguais. Mas ele sobreviveu e agora é só o que importa.

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