segunda-feira, 30 de agosto de 2010

breve história de pepe coelho

Naquela sexta-feira, no verão de 99, Pepe Coelho estava irreconhecível. Nervoso, suas mãos suavam e suas pernas não tinham firmeza suficiente para acertar um passe de dois metros no gramado que, por tantos anos fora uma de suas casas. “Pepe, tu tá bêbado? Te liga no jogo, levanta a cabeça, porra!” – gritou um companheiro depois que Pepe, o camisa 10 do “Amigos do Didi”, errou mais um passe fácil.

Ele não entendia. Por mais que se esforçasse para manter a concentração, seu corpo não obedecia aos seus neurônios e sua confiança sucumbia junto com o time que, em menos de quinze minutos de jogo, já estava perdendo por dois gols.

Foi o pior em campo e ficou arrasado.

Depois da partida entre os amigos – todos com mais de quarenta cinco anos, exceto o filho do Jair Galinha que, desde em vez quando, entrava para completar o time – Pepe foi direto para o bar, ao lado do campo esburacado, com a maioria dos que participaram da pelada. “Jogou mal, por quê? Tava ansioso para tomar cachaça né, Pepe?”

Não. Ao contrário da maioria dos cachaceiros, Pepe não se embriagava quando estava muito triste e em meio à sua crise depressiva, lembrou-se do seu passado recente.

Em 87, perdera a mulher, casa e trabalho porcausa do álcool e viveu um ano como andarilho até chegar a São Clemente do Norte, cidadezinha no sul do estado. Lá, viveu mais dois anos pedindo esmolas na praça da igreja. Apesar de tudo, Pepe nunca largou a paixão pelo futebol e sempre que tinham jogos no único campo da cidade, ele aparecia e pedia pra jogar.

Aos poucos, conquistou a confiança dos boleiros da cidade. No Natal de 91, ganhou de presente uma camisa do time de masters “Amigos do Didi” e um par de chuteiras Kelme. Foi o dia em que mais chorou desde que foi enxotado pela esposa.

Pepe criou devoção pelos seus amigos de futebol, que retribuíam como dava. Em 94, Pepe tornou-se o “caseiro” do campo de futebol da cidade. Era o responsável por anotar os horários de jogos e cuidava dos dois dobermanns, guardiões do campo. Em troca, ganhou um pequeno quarto, atrás dos vestiários. Além disso, cortava a grama do relvado e de alguns vizinhos. “Bicos” que, quase sempre, garantiam comida e cachaça.

Apesar de todo o sofrimento porcausa dela, ele não a largou - apenas diminuiu a dose de cana. Orgulhava-se quando passava dois dias sem beber.

“Acorda, Pepe! Faz quinze minutos que tais calado, olhando pro nada!”. Ele voltou ao presente. Fingiu que estava apenas cansado e começou a comer frango à passarinho. Enquanto seus amigos ficavam bêbados, Pepe, sóbrio, foi ficando com saudades, mas não sabia do que.

E quando a angústia venceu todas suas forças psicológicas, Pepe Coelho resolveu ir para sua casa – o quartinho, cinquenta metros dali. A essa altura, só restaram sete homens no bar. Influenciado por sentimentos tão intensos e confusos, Pepe se despediu de cada bêbado com um abraço forte.

Seus amigos estranharam. Pepe nunca escondeu a gratidão que tinha para com eles, mas nunca tinha os abraçado tão intensamente. “Porra, que isso, Pepe? Tá querendo limpar a tua mão suja do frango na gente?”. Os bêbados caíram na gargalhada e Pepe foi dormir.

No dia seguinte, um sábado muito quente, Pepe acordou de ressaca sem ter bebido e ficou nervoso ao perceber que seus sentimentos e aflições ainda o perturbavam.

Às nove e quarenta e cinco da manhã, os cachorros começaram a latir e Pepe Coelho foi ao portão ver quem chamava. Era Luizinho, filho de um vereador da cidade e o único desafeto que Pepe tinha cidade. “Bom dia, Pepe Cachaça! Seguinte, marquei um jogo às duas da tarde. Chamei um pessoal de Criciúma pra jogar e quero que essa merda desse campo esteja decente. Outra coisa, eu quero um árbitro. Te pago setenta pila.” Pepe aceitou.

Pepe Coelho nunca gostou de apitar, mas disse sim à proposta. Desde que saiu de casa, nunca tinha ganhado tanto dinheiro em tanto pouco tempo. Conseguiu se animar um pouco e, uma hora antes, já estava pronta para apitar o jogo do menino metido.

Foi a hora mais demorada da vida de Pepe. Toda a angústia que começara no dia anterior voltara e, dessa vez, muito mais forte. A saudade era insuportável e ele ainda não sabia do que sentia, ou sentiria falta. Suava muito e novamente pensou no passado. Abriu a única gaveta do guarda-roupa de uma porta e trocou de camisa. Tirou a veste amarela desbotada de árbitro e vestiu aquela camisa do Natal de 91.

Imediatamente, ele entendeu. Era essa a camisa que ele tinha que usar na despedida.

Quando os times chegaram, Pepe foi ao círculo central e deu início à partida com seu apito enferrujado. Ele não gostava de apitar, mas devido a sua enorme paixão pelo futebol, ele o fazia bem. Mas, em um contra-ataque rápido, Pepe não conseguiu acompanhar o ritmo dos jogadores, viu o atacante cair e marcou pênalti contra o time de Luizinho – o filho do vereador.

O jogo não valia nada, apenas a chance de Luizinho se mostrar para alguns amigos da cidade grande por pagar todo o custo da partida. E ele não perdeu a chance. Peitou Pepe Coelho e, de muito perto, gritava com o árbitro que sentia a saliva do moleque a cada sílaba pronunciada pelo infeliz.

Pepe Coelho ficou inconformado com a atitude. Empurrou Luizinho e saiu de perto, cabisbaixo.

Os jogadores não perceberam, mas Pepe nem viu o pênalti ser convertido. Queria ir para seu refúgio, queria chorar. Passou no vestiário, vizinho de seu quarto e pôs-se abaixo de uma ducha fria, sem tirar a camisa dos seus melhores amigos.

Enquanto viajava em seus pensamentos por todo o seu passado, Pepe Coelho ouvia a voz de seu amigo Jair Galinha, que assistia à partida em que seu filho também atuava. A voz estava alta, alterada. Eram gritos.

Pepe começou a chorar e seus sentimentos confusos foram o sufocando. Jair estava defendendo seu amigo, que errara ao apitar o pênalti, em uma discussão que logo se transformou em briga. Pepe estava suando como nunca antes, viajava em seus pensamentos. Quando conseguia voltar ao mundo real, ouvia a briga ficar mais intensa. Quis sair dali, mas não conseguiu. Seu corpo não o obedecia mais. No campo, uma briga generalizada. Embaixo do chuveiro, Pepe tremia. Um barulho de tiro. Pepe entendeu, beijou o escudo bordado na sua camisa, fechou os olhos e, junto com Jair Galinha, dormiu.

2 comentários:

  1. Goste muito Matheus !
    Bom artigo escrito com sentimentalismo mas sem cair em subjetividades.
    Sei mais de uma que vao a chorar quando ler o mesmo.
    Um abraço,
    Alejandro

    ResponderExcluir
  2. Curti mesmo brother! Parabéns!
    Abraço
    Pedro Mometto

    ResponderExcluir